Projeto “40 anos, 40 artistas” | Na Gravura com Bartolomeu Cid dos Santos

Bartolomeu dos Sandos, 2003 “Welcome to Samarra” Gravura 50×37,5 cm Obra apresentada na XII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, realizada de 16 de agosto a 21 de setembro 2003

A obra de Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008) carateriza-se pela sua dimensão irónica, por uma forte consciência política (sobretudo num contexto de oposição ao Estado Novo), mantendo vivas várias referências à História de Portugal, nomeadamente aos Descobrimentos, e à literatura. Parte desse encontro com a literatura vem do seu convívio com Paula Rego (n.1935) que, em 1969, lhe fala pela primeira vez da obra literária do argentino Jorge Luís Borges (1899-1986).

O seu gosto pela História terá surgido das viagens e aventuras com o avô, o historiador Reynaldo dos Santos (1880-1970) que em 1949 coloca o neto em contacto com grande parte dos críticos da época que se encontravam no Congresso Internacional de História da Arte, realizado em Lisboa. Nesta altura, Bartolomeu Cid dos Santos imaginava uma possível fuga, ao país e ao regime, que no campo da discussão estética se encontrava entre as prevalências da abstração, do neorrealismo e do surrealismo. Contudo, em 1950, o artista ingressa Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (hoje FBAUL) de onde sairá em 1956 em direção a Londres e à Slade School of Fine Art, tendo iniciado, em 1961, atividade como docente da área da gravura, que manteve durante várias décadas. O seu fascínio pela capital britânica terá acontecido a partir da aquisição do livro “Charmes de Londres” que continha fotografias e preto e branco da cidade, da autoria de Israëllis Bidermanas, e que refletiam um lugar em plena efervescência, inebriado pelo misticismo do nevoeiro e da industrialização.

Quando Bartolomeu Cid dos Santos chega à Slade School of Fine Art encontra João Cutileiro (n.1937) e terá conhecido Paula Rego (n.1935) que, nesse mesmo ano, regressa a Portugal, que se fixar lá anos mais tarde. Terá sido Bartolomeu dos Santos a iniciar Paula Rego na gravura e ambos terão mantido uma estreita relação de amizade. Contudo, o interesse inicial de Bartolomeu Cid dos Santos é pela pintura. Chegado a Londres, é rapidamente aconselhado a conhecer Anthony Gross (1905.1984) e a integrar o Departamento de Gravura, por introduzir bastante negro nas suas aguarelas. No advento da gravura com influências da Pop Art, a gravura em Inglaterra era ainda marcadamente a preto e branco pelas técnicas de calcografia que engloba as técnicas em chapas de metal (cobre ou zinco) geralmente conhecidas por água-forte e água-tinta.[1]

Bartolomeu Cid dos Santos trabalhará em gravura durante cinco décadas e, em Londres, nunca teve condições para ter o seu próprio atelier, tendo utilizado sempre as instalações da Escola, o que contribuiu, de certa forma, para uma aproximação aos alunos, estabelecendo um espírito de coletivo em torno da gravura e sendo-lhe reconhecido o mérito pela mudança estrutural no ensino de gravura a que a Slade School of Fine Art assistiu. O domínio exímio da técnica permitiu ao artista explorar a plasticidade em diferentes técnicas de gravura, sem nunca perder a inquietação pela experimentação e pela descoberta da novidade. Bartolomeu Cid dos Santos desenvolveu, inclusivamente, a técnica de gravura a ácido sobre pedra para decoração mural, sendo de sua autoria o painel da estação de metro de Entrecampos (1991-93), em Lisboa. Membro da The Royal Society of Painter Printmakers, em Londres, o artista foi agraciado com diversos prémios, sendo nomeado, em 1996, Emeritus Professor in Fine Art of the London University. Realizou mais de duzentas exposições, tem diversas obras em espaço público e integra coleções relevantes em Portugal, Reino Unido, França, Bélgica, E.U.A. e Brasil, tendo deixado um legado indelével que elevou a gravura às Belas-Artes.

Após a sua jubilação da Slade School of Fine Art, construiu um atelier em Tavira que foi reabilitado alguns anos após a sua morte, passando a denominar-se Oficina Bartolomeu dos Santos, sendo um espaço de divulgação da gravura e de acolhimento de artistas em projetos de residência e outros.

De 2003, a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira integra uma gravura intitulada “Welcome to Samarra” (50×37,5 cm), apresentada na XII Bienal Internacional de Arte de Cerveira, que decorreu entre 16 de agosto e 21 de setembro 2003, correspondendo a um período em que o artista devolve a sua produção a temas relacionados com a repressão política, a guerra e a violência.

[1] https://gulbenkian.pt/museu/artist/bartolomeu-cid-dos-santos/ em 30 de setembro de 2018.

 

« Texto de Helena Mendes Pereira

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