Projeto “40 anos, 40 artistas” | Acácio de Carvalho na concentricidade da cor

 

 

A relação de Acácio de Carvalho (n.1952) com a Bienal Internacional de Arte de Cerveira (BIAC) não é de agora e não é com surpresa que uma das intervenções de espaço público que assinalam os 40 anos do evento é da sua autoria. Em “Assalto ao Castelo” (2018) o artista recorre à utilização de tubos e de outros materiais tradicionalmente da construção civil e que escapam à nossa perceção quotidiana, uma vez que, são utilizados do interior das paredes das estruturas de suporte dos edifícios ou no subsolo. As entranhas revelam-se, assim, criando um interlúdio na relação que o património e a paisagem têm entre si. Paisagem e património são duas das três marcas do território que, a partir de 1978, cresceu e se desenvolveu com a bienal, os seus artistas e utopias. Hoje é Vila das Artes e é por isso curiosa a imposição deste “Assalto ao Castelo”, que persegue os pressupostos do ser contemporâneo no recurso à multiplicação de possibilidades do hoje, nomeadamente, dos materiais e meios, e por colocar desafios e alterações à forma como o espectador – que se transforma em participante e conclusão da obra – perceciona o espaço e o habita. As formas e a composição da intervenção correspondem, de certa forma, a uma extensão da produção em pintura mais recente de Acácio de Carvalho, dominada pela concentricidade das formas que nos sugerem uma terceira dimensão ou plano. É a pintura a querer ser cenografia ou a cenografia a querer ser pintura e no acrílico sobre tela, que integra a seleção de artistas convidados da XX BIAC (em exposição do Auditório do Fórum Cultural de Cerveira), sentimos esse contágio. Em “Assalto ao Castelo” a paleta é, contudo, dominada pelas cores primárias, não seguindo a paleta pop ténue, por vezes sombria, por vezes luminosa. Contingências do mercado e fidelidade à essência dos materiais escolhidos.
Acácio de Carvalho cursou Artes Plásticas na Escola Superior de Belas Artes do Porto, concluindo esta primeira fase da sua formação académica em 1980. É na pintura que começa a fazer caminho. Entre 1971 e 1981 trabalhou como designer gráfico no Jornal de Notícias. O apelo para a cenografia e para uma aproximação mais vinculativa ao teatro não tarda, considerando que, desde 1965, que participava em produções na área do teatro, da dança e do cinema, como ator, encenador mas principalmente como cenógrafo. Hoje são mais de uma centena as participações. Volta a estudar, desta vez para concluir Mestrado em Cenografia (no biénio de 1986 a 1988) na Universidade de Boston (E.U.A.). É, desde há várias décadas, cenógrafo da Companhia de Teatro de Braga. Atualmente desenvolve projeto de doutoramento em Media Arte Digital (Universidade Aberta/Universidade do Algarve). Percebemos, desta forma, como fez o caminho da bi à tridimensionalidade e, agora, de aproximação aos novos media eletrónicos/digitais, desenvolvendo projetos nas várias disciplinas, onde mantém uma linguagem que privilegia a articulação entre elementos geométricos, por vezes de sui generis figuração e sugestão de referencial real.
São centenas, também, as participações em exposições coletivas e individuais, listagem em que se inclui sempre a bienal mais antiga da Península Ibérica. Em 2001, Acácio de Carvalho foi Prémio Aquisição Millennium BCP na XI BIAC, realizada de 18 de agosto a 15 de setembro de 2001 com Tampa Net I, uma técnica mista sobre MDF de 245x184cm, que integra a coleção da Fundação Bienal de Arte de Cerveira. A obra, que se expande da pintura e que já nos remete, tematicamente, para os tempos do digital, configura a tal definição de paleta e acrescenta corpo e textura a uma ideia de plasticidade que o artista, desde então, vigia, consciente e inconscientemente, nas suas formas de conceber/fazer. Às comemorações dos 25 anos da BIAC, Acácio de Carvalho, contando com a colaboração de outros artistas, haveria de dar corpo, cor e lápis a um painel comemorativo de 200x150cm que integrou a XII BIAC, realizada de 16 de agosto a 21 de setembro 2003 e que se localiza na empena do edifício contíguo à sucursal do Millennium BCP na Praça do Alto Minho, no centro da Vila das Artes.
15 anos depois, devolvemos a Acácio de Carvalho o privilégio de assinalar com nova intervenção as nossas comemorações, desta vez de 40 anos e com a BIAC a acertar para calendário par. Desde a coleção ao espaço público, este é um dos artistas que ajuda a contar a história do evento e que dá sentido à preservação da memória e a uma ideia de casa e família que queremos perpetuar, pelo menos, por mais 40 anos.

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